domingo, 9 de setembro de 2012

GADANHA DA PRIMAVERA



"Ajude-me!”
Sussurrou o Velho midiático e canceroso para a Primavera.
Os meus dias também estão contados, Senhor”.
Floreou inocentemente, dirigindo-se ao moribundo cansado, em evasão.
Não parece, mas a todo tempo venho tentando, incessantemente, transformar a perspectiva da minha dor futura em arte. Contemple-me, e vá em paz”.



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

INDIFERENÇA





O que tenho a dizer não é doutrina.
Meu destinatário é anônimo, e há quem duvide de sua materialidade corpórea.
A finalidade de tudo isso é o testemunho, despido de qualquer vaidade, flertando com a real possibilidade de que existem diversos meios para se chegar a um fim. Sim, podemos (e devemos) ser felizes, ou então, tristemente, puxar o fio condutor até os confins do inferno dantesco.
Somos livres para seguirmos de um extremo a outro, calcando em cima de plumas ou de pedras, que por mais dolorosas que sejam, podem ser suportadas de forma mais amena a partir da ideia de que delas temos. Não se trata de um viver ou morrer estoico, mas de dosarmos oportunamente um pouco de indiferença.

CHÁ




Nem sei se sou Zen.
Apenas dobrei meus joelhos,
experimentando e sorvendo sonhos pulverizados.
Amarga cerimônia, suave estimulante,
diluindo-se em karma, espuma, em princípios.
Levando-me a meditar harmoniosamente nos micro rituais dessa curta e passageira vida. 



sábado, 25 de agosto de 2012

MEU MELHOR AMIGO

Nos dias de brumas minha negatividade transborda, devastando leitos e castrando castelos suspensos. A culpa incerta me desconecta do verossímil, do sóbrio; desabilita e “despluga” minha fraternidade latente.
Busco então, atropelando os gatos no corredor da casa velha e recém incendiada, a chave que destravaria o santuário onde se encontra a capa da invisibilidade.
Se me falta ópio, as letras nas linhas tortuosas também me servem.
Se a auto aversão persiste, no entanto, de nada adianta a ordem e o progresso.
Se a decência evapora rapidamente, sobram-me os algozes insolentes, que nada representam nos dias de névoa e desconexão do circuito de raiva.
A indiferença mantém-se enquanto o celular toca. Não há como fugir dessa realidade, como evitar encontrar um intermediário fulgurante entre os homens e as coisas divinas, sentir-se completo diante das suas súplicas e sacrifícios, obrigando-me, por fim, a participar da gênese do amor e da transcendência que você representa.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

R.E.M




Os pesadelos ensaiam aos pés de nós vítimas voláteis.
Recusar a verdade, aceitar a mentira, fingir diante do grande público que também geme, inquieta-se, a noite com o ranger do R.E.M., é um simples atentado às insônias que não querem se calar.

domingo, 29 de julho de 2012

O Mago





Corri, nadei, fugi... para o meio do nada, onde contemplei a queda de estrelas dum firmamento simbólico, parecido com os tapetes vermelhos que pisas.
Mas agora estou bipolarmente feliz... almoçar na casa de alguém é a morfina que você não pode me retribuir.
Sou um distúrbio no seu jardim, então é melhor você se esconder.
Cedo ou tarde você terá que me ver escandescer, como um “little boy” só seu, em plena segunda-feira, florescer, em um turbilhão de revelações e desolações.
Que escolha eu tenho? Assinale você. Somos tolas vítimas genocidas apaixonadas, guerreiros de Cnido, misturados ao sacrifício de “mil bois”.
Brotando das almas transceptivas e imperfeitas, o rádio ecoa nossa canção. Que lindo domingo! As letras oscilantes lembram-me de que são feitas as verdades e as mentiras, convertidas em corrente elétrica, viajando no espaço, pulando, modulando de coração em coração.
Meu coração pulsa em ondas sonoras, ondas de vida, ondas de morte, propagadas, quase sem querer, no seu espaço, órbita cortante e inconstante.
Gostaria, imensamente, de pouco esticar meus braços, e ter que puxar do bolso o resultado do meu acometimento, bendito prognóstico, todos os “marlboros”, que não são poucos nem tímidos. Até quatro, aliviaria a distimia; uns oito, aplacaria a minha hipomania esotérica.
Mas o Mago diz que não é tão simples assim. É preciso recomeçar a caminhada. Vislumbrar sempre a taça, o punhal, o pergaminho e a moeda... e buscar, mesmo sem querer, evoluir para melhor, imediatamente.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Pêndulo



"A vida oscila, como um pêndulo, entre a dor e o tédio" (SCHOPENHAUER).